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sexta-feira, 1 de julho de 2011

O reparador de brechas

Por Oliveira Fidelis Filho
"Serás chamado reparador de brechas e restaurador de veredas para que o país se torne habitável."(Isaías 58.12) No livro de Isaías, no capitulo 58, versículos 1-14, o profeta desafia-nos a tornarmo-nos reparadores de brechas. Um relevante projeto de vida, pois o que não faltam são rachaduras, quer em nível pessoal, familiar, comunitário, social ou planetário. Parafraseando o Mestre, "as rachaduras são numerosas e os reparadores ainda são poucos".

O reparador de brechas é alguém que vivencia uma espiritualidade para além da religiosidade. (Isaías 58.1-7). Caminha pelos estreitos caminhos do autoconhecimento, do auto-exame, da congruência. Repara em si mesmo o que precisa ser reparado, está sempre disposto a "fechar para balanço". Entende que a inteireza depende de si mesmo e, portanto, busca ser pleno.

O reparador de brechas é alguém que promove a liberdade: "se tirares do meio de ti o jugo". (Isaias 58.9).

Isaías refere-se ao jugo físico, sobre o trabalho escravo, sobre a servidão imposta a muitos por alguns. Com muita facilidade, lança-se mão do poder - físico, intelectual, financeiro, social, político, religioso, etc. - para oprimir o semelhante. O reparador de brechas, no entanto, usa sua capacidade, influência, para defender, acolher, proteger, libertar, aliviar. Entende que ser mais forte, seja em que área for, só serve se for para servir.

O reparador de brechas é alguém que promove liberdade com o uso das palavras. Muitos vivem sob a força destruidora das palavras. Sob esse jugo e opressão gemem esposas, maridos, filhos, pais, irmãos, entre outros. São inestimáveis e por vezes irremediáveis os estragos que palavras irrefletidas, carregadas de ódio, ira, inveja, esvaziadas de amor produzem na alma, no corpo e nos relacionamentos. Entretanto, da boca do reparador de brechas jorra "graça e a verdade" (Salmo 85.10). A verdade é comunicada com graça que suaviza, interioriza e valida a verdade dita.

O reparador de brechas é alguém que tem prazer em acolher: "se tirares do meio de ti o dedo que ameaça." (Isaías 58.9).

A facilidade em acusar, julgar e condenar revela o quanto estamos envolvidos e cegados pelas sombras e destituídos de Luz. Quem condena geralmente abandona e dificilmente acolhe. O reparador de brechas sabe que "o que torna agradável o homem é a sua misericórdia" (Provérbios 19.22). Porta-se como filho de Deus, filho da Luz, pois, lembrando o profeta Isaías, "o Senhor espera para ter misericórdia de vós e se detém para se compadecer de vós, porque o senhor é Deus de justiça". (Isaías 30.18).

O reparador de brechas crê na possibilidade de mudança, entende que estamos em processo de construção e aperfeiçoamento. Sabe que o que focamos se expande, portanto, concentra esforços nas possibilidades, na busca de solução, na valorização do que ainda funciona.

O reparador de brechas é movido pelo desejo de abençoar: "se tirares do meio de ti o falar injurioso." ( Isaías 6. 9).

Entende que o falar injurioso, que acusa, insulta, ofende, não lhe diz respeito e por isso faz uso de "palavras agradáveis, como favo de mel; doces para a alma e medicina para o corpo." (Provérbios 16.24). Ao falar, abre horizontes, gera sonhos, restaura a confiança, a auto-estima, produz motivação, refaz a esperança, acalma os ânimos, cessa a contenda, remove o jugo.

O reparador de brechas é dotado de compaixão: "se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita". (Isaías 58. 7-10.)

No livro de Jó, 19.21 é possível sentir seu grito quando diz: "compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim..." Não é um grito isolado, é o grito de milhões. Nos lares, nas igrejas, nos clubes dos ricos, nas favelas dos pobres, na alma do intelectual e do analfabeto, nos transportes coletivos apertados ou nos carros de luxo. O reparador de brechas possui a sensibilidade para ouvir gritos famintos da alma e do corpo e agir no sentido de supri-los.

O RESULTADO DE VIVER COMO RESTAURADOR DE BRECHAS

É alguém dotado de luminosidade. (Isaías 58.8). É alguém por meio do qual a luz de Cristo brilha através de seus atos de bondade e misericórdia.

É alguém cuja alma esbanja saúde emocional. (Isaías 58.8). O reparador de brechas não tem tempo para insônias, angústia, ansiedade, mágoas, ressentimentos ou para ficar deprimido, revoltado e tantas outras enfermidades dos dias atuais, resultantes de se viver ensimesmado.

As pessoas testemunharão positivamente sobre sua vida. (Isaías 58.8). Não é alguém que sinta necessidade de se promover ou de ser reconhecido, até porque muitos se encarregarão de fazer isso por ele.

Deixa um rastro da presença de Deus. (Isaías 58.8). O reparador de brechas não busca seus próprios interesses, portanto, por onde passa o que fica é a sensação de que foi o próprio Deus que passou por ali.

É alguém consciente de ser ouvido por Deus. (Isaías 58.9). A autoridade de sua oração vem de sentimentos e desejos em plena sintonia com a vontade de Deus.

Vive sem medo, guiado e fortalecido por Deus. (Isaías 58.11). Não sente necessidade de escolher entre a vida e a morte pois para ele dá tudo na mesma, tudo é vida e vida em abundância.

Será como jardim regado, um manancial. (Isaías 58.11). É do tipo que "passando pelo vale árido, faz dele um manancial" (Salmos 84.6) pois possui as fontes de vida jorrando a partir de sua interioridade. "Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas que, no devido tempo, dá o seu fruto e cuja folhagem não murcha."(Salmos 1.3).

Seus filhos serão instrumentos de edificação. (Isaías 58.12). "No temor do Senhor, tem [o reparador de brechas] forte amparo e isso é refúgio para os seus filhos." (Provérbios 14.26). Portanto, deixa para os filhos uma herança que ninguém tira: sua vida, seu nome, sua história, seus atos, seus frutos e, espelhados em seu exemplo, os filhos serão pessoas que contribuirão positivamente na edificação da sociedade. Diferentemente do "nome do perverso que cai em podridão, a memória do justo é abençoada" e abençoadora. (Provérbios 10.7). Sua vida será rememorada por gerações que usufruirão de sua luminosidade.

Deleita-se na Essência Divina. (Isaías 58.14). Vive a mais emocionante de todas as aventuras: a de caminhar com Deus na terra dos viventes. O reparador de brechas pode exclamar: "Cantarei ao Senhor, porquanto me tem feito muito bem. Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente. Mais alegria me puseste no coração do que a alegria deles. Em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só tu me fazes repousar seguro." (Salmos. 13.6; 16.11; 4.8).

sábado, 5 de março de 2011

Os efeitos psicossomáticos do perdão

Por Oliveira Fidelis Filho

"Há quem goste dos olhos e os que gostam da remela!", diz a "sabedoria popular". Há os que, salvaguardando as devidas proporções, assemelham-se a urubus enquanto outros se comportam como colibris. No que tange ao perdão - ao ato de perdoar ou não - cabe ainda a comparação com rosas e espinhos.

Quem opta por não perdoar é um colecionador de espinhos, fã da remela, consumidor de alimentos com data de validade vencida. Pois são estas as sensações, os valores, os perigos e as perturbações que a ira, o desejo de vingança e a raiz de amargura fazem germinar e frutificar em quem opta pelo não perdão. Tais padrões limitantes de pensamentos, sentimentos e atos ferem quem os abraça, produzem cegueira e roubam da vida o encantamento. Abrem as portas para perturbações psicossomáticas, sobrecarregam e comprometem o bom funcionamento da mente e do coração, do corpo e da alma e azedam os relacionamentos.

Manter estes sentimentos menores, mesmo que os tais nos acenem com aparentes "ganhos secundários" é optar pela remela em detrimento dos olhos, pelos espinhos em lugar das rosas, pelo padrão alimentar do urubu ou invés do atraente, aromático, suculento e adocicado cardápio do beija-flor. Sem dúvida, não são as melhores opções, temos a liberdade e o dever de fazer escolhas melhores.

Quem perdoa, entretanto, prefere se encantar com os cenários amorosamente criados e percebidos a partir de olhos bons, capaz ainda de energizar e iluminar todas as dimensões do corpo ou, como diria o Mestre Jesus: "Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso". Olhos sem remelas!

Quem perdoa, abandona os espinhos e corre em direção às flores, assemelha-se a elas despertando para a Vida em expressões de beleza, bondade e graça. À semelhança dos colibris, move-se pela vida nutrindo-se do aroma Crístico, da Essência Divina, facilmente perceptível aos que carregam no peito um coração limpo. Ao declarar "bem-aventurado os limpos de coração, porque verão a Deus", o Mestre está também afirmando que os que optam e praticam o perdão, como um modo de vida, tornam-se capazes de perceber expressões e manifestações da divindade em tudo e em todos; o limpo de coração, quando olha para o semelhante, é capaz de "ver a luz ao invés do abajur".

Quando perdoamos, faxinamos o coração e lavamos a alma, abrimos as janelas na direção de novos e reconfortantes horizontes, ao mesmo tempo em que nos libertamos das sombras com seus julgamentos, culpas e medos. Ao vivenciarmos o perdão, deixamos de desperdiçar preciosas e sagradas energias, até então insanamente utilizadas na geração de stress elevado e nocivas batalhas mentais, verbais e até mesmo físicas.

Podemos justificar a opção pelo não perdão com os mais lógicos e contundentes argumentos; com toda certeza, não nos faltarão argumentos! Entretanto, nenhum desses infindáveis argumentos nos beneficiará, trará paz ou nos fará melhores, pois manter o ressentimento, a ira e o desejo de vingança hospedados no coração, significa infligir uma crueldade igual ou maior àquela da qual acreditamos termos sido vítimas. Não perdoar, portanto, é ser carrasco de si mesmo.

O perdão é jóia preciosa, de rara beleza, com a qual presenteamos a nós mesmos. É um ato de elevada generosidade e constitui imprescindível investimento em nossa qualidade de vida, saúde psicossomática e relacional. É um grito de independência em relação a quem nos mantemos acorrentados pelos grilhões da amargura.

Guardar ressentimento, ira e desejo de vingança, equivale a segurar uma brasa na mão com a intenção de jogá-la em alguém; é como perder precioso tempo procurando a serpente que nos inoculou seu peçonhento veneno. Ao sentirmos o incômodo de uma pedra no sapato, paramos, tiramos o sapato, livramo-nos da pedra e, confortavelmente, continuamos a caminhar. O não perdão é uma pedra que carregamos no coração, que dificulta a caminhada e que faz sangrar a alma.

O mais atingido e prejudicado com a ausência do perdão é quem se recusa a perdoar e, obvio, quem mais lucra é quem perdoa. Perdoamos alguém não pelo fato de ser ou não merecedor de perdão e sim porque merecemos contemplar a nós mesmos com esta divina dádiva, pois quem perdoa investe em si mesmo.

Há quem passe pela vida esperando alguma coisa ruim acontecer com quem lhe infligiu algum dano, entretanto, como já disse, isso equivale a segurar na mão uma brasa à espera do momento de arremessá-la, é manter no sapato a pedra que dificulta a caminhada. O sentimento de vingança se volta contra quem o hospeda podendo, dependendo da intensidade e da durabilidade, produzir perturbações irreparáveis. Portanto, perdoar é também um bom plano de saúde, pode trazer considerável economia com médicos e remédios.

O perdão libera espaço na mente e no coração para ser dedicado aos amigos, a quem amamos, pois, admitamos ou não, os inimigos são mais íntimos e mais presentes em nossos pensamentos e sentimentos dos que os amigos. Não perdoamos para nos sentirmos superiores, importantes, santos ou mais bonitos, perdoamos para nos sentirmos libertos, em paz e saudáveis. O perdão é uma prova de amor a nós mesmos: quem se ama, perdoa.

Busque em Deus a força para perdoar mas evite lembrar-se diante Dele do seu ressentimento e seu desejo de vingança. Deseje simplesmente que Ele transborde de Amor o seu coração. Onde chega o amor, o ódio é despejado e se existir amor existirá perdão.

Se não for capaz de sozinho libertar-se dos ressentimentos, da ira, do desejo de vingança, busque ajuda através de um psicanalista, psicólogo ou psicoterapeuta de sua confiança.

Perdoar é fazer uma plástica na alma, é deixar o sorriso livre, é desatar as asas da paz e ser acolhido em si mesmo. É sentir-se abraçado pelo universo, por Deus, pelo Eterno Mistério. Ao perdoar nos tornamos livres do passado, leves no presente, abertos para o futuro; expandimos o divino em nós, percebemos que Deus nos habita e que por Ele somos perdoados.

Do Clube STUM

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